29/01/10

Crónicas C’um Caneco - Dia 9

Uma vez chegados à entrada do antigo edifício onde Eugénia vivia, cujas rachas na fachada principal se assemelhavam a separados lábios a pedir ajuda para sarar aquelas feridas, Rodolfo abeirou-se daquela mulher, colocou-lhe um braço por cima do ombro direito, apoiando a mão na parede, e numa profunda inspiração disse-lhe, quase em tom de sussurro, que estava entregue e em segurança. Eugénia, pela primeira vez desde que este maldito Domingo tinha dado sinais de vida, sentiu-se, agora sim, realmente detida. Presa. Amarrada. Aquele braço, que nem sequer estava em contacto com o seu corpo, emitia uma energia atrativa de alta intensidade emocional. Completamente magnetizante. Por alguns instantes a figura de Tobias não lhe toldou a mente.
De modo algo envergonhado, mesmo com algum embaraço, arriscou convidar o Inspector para um café, fazendo figas para que ainda houvesse algum na lata, onde o costumava misturar com xicória.
O Inspector Rodolfo parecia que estava já à espera daquele convite, tal foi a rapidez com que o aceitou. Foi, igualmente, uma forma de aliviar a tensão que se tinha apoderado de Eugénia, mulher habituada a lidar, desde há muito, com todo o tipo de homens, mas que, por alguma razão que lhe estava a passar completamente ao lado, não estava a conseguir dominar a situação que se lhe deparava.
Após um ligeiro impasse, que passou pela atrapalhação com que Eugénia passou por baixo do braço, que Rodolfo, teimosa e propositadamente tinha deixado ficar encostado à parede, lá subiram os dois, até ao segundo piso, pelas velhas escadas de madeira.
Como sempre acontecia, Eugénia Epifânia teve que pousar a sua bolsa sobre o corrimão, de modo a poder procurar a chave de casa por entre toda a tralha que carregava dentro da mala, tal qual como a maioria das mulheres. Finalmente, e após ter despejado quase tudo cá para fora, lá apareceu a dita cuja. Num ápice, fez ranger a chave na fechadura, rodando-a de forma abrupta e puxando a porta para si, para de seguida a empurrar com uma joelhada e a abrir.
De imediato, soltou um grito assustado. Rodolfo, também apanhado de surpresa com aquele grito, entrou de forma atrapalhada pelo apartamento, onde, ao fundo do corredor, se encontrava Vanessa, a viúva oficial de Tobias, naquilo que se podia chamar, em gíria, a fazer uma “espera”. Não contava, entretanto, era que Eugénia estivesse acompanhada pelo Inspector da Polícia, a quem naquela manhã, bem cedo, já tinha prestado declarações.

(Continua um destes dias...)

05/01/10

Crónicas C’um Caneco - Dia 8

O entardecer daquele dia em Lisboa estava particularmente bonito. Os últimos raios, alaranjados, de sol trespassavam por entre janelas, varandas e varandins de prédios antigos, realçando as formas minotáuricas esculpidas na pedra, com que algumas destas construções alfacinhas foram brindadas nas décadas de 50 e 60 do século passado. Lisboa, naquele Domingo, encontrava-se ainda mais romântica.
Entre as instalações da Judiciária e o apartamento de Eugénia, distavam apenas cinco ou seis prédios, intercalados por duas pastelarias, uma delas modernaça, daquelas que vendem pão quente a toda a hora, uma taberna típica, do Sr. Alípio, e o quiosque Saphar. Ah, e faltava a Funerária. Aquela cujo dono a tinha batizado de “Cá Te Espero”.
A zona era conhecida tanto por Eugénia, que aí vivia, como por Rodolfo, que aí passava grande parte do seu dia. Os dois caminhavam calma e serenamente pelo passeio estreito, aqui e ali obstruído por carros que teimavam em estar mal estacionados. Por ironia, alguns deles, pertenciam mesmo à polícia...
Rodolfo, como que impulsionado por uma força desconhecida, tinha inventado uma desculpa esfarrapada para com os seus colegas, e tinha aceite a sugestão de Eugénia para que a acompanhasse até ao seu prédio. Os subordinados do Inspector tinham ficado boquiabertos. Pela segunda vez no mesmo dia, foram surpreendidos pelo chefe. Aquele tipo carrancudo tinha passado a cordeirinho em apenas algumas horas de interrogatório a Eugénia Epifânia.
- Não há dúvida! Exclamou Matos Leitão. O nosso Inspector está apanhado. E pela assassina. Agora que vai passar um bom bocado...ai, ai..ui, ui... disso não duvido. Só espero que não lhe “palite” os dentes com um picador de gelo. Lembram-se daquele filme com a loura boa que sabe como cruzar as pernas?
- Simmmmmmmmm, exclamaram os outros agentes! Já conheciam a fixação de Matos Leitão pela Sharon Stone há muito tempo. Até diziam que o Leitão tinha ficado vesgo por isso mesmo, tanta vez o homem já tinha visto (e revisto) a cena do cruzamento de pernas de todos os ângulos. Pensam até que o colar cervical que usou durante duas semanas, há uns anos atrás, a isso se deveu...
Mas eles estavam preocupados mesmo era com o Inspector...

(Continua um destes dias...)


31/12/09

Lúcio era mau

Aquele homem tinha maus fígados. O seu nome era Lúcio, como os dos peixes lá do rio. Na aldeia ninguém gostava dele. Todos ficavam magoados, até feridos, com os seus comentários e acções. Por isso lhe chamavam Lúcifer...

23/12/09

Crónicas C’um Caneco - Dia 7

A sala da PJ, de um momento para outro, ficara vazia. Apenas Eugénia lá continuava, mantendo o ambiente, ainda relativamente quente. Rodolfo e os seus agentes tinham-se ausentado, momentaneamente, para um compartimento anexo, imune a olhares indiscretos e longe dos ouvidos de toda a corporação. O momento era delicado, contrastando com Rodolfo que estava prestes a partir a loiça toda.
- Foda-se! Exclamou. Nada bate certo nesta história! E nós? O que temos? Nada! Nada!!
- Desculpe Inspector, mas não concordo consigo.
Tobias arregalou os olhos e fitou aquele que era o agente mais velho no activo, e conhecido pelo seu sentido de humor, que utilizava, por norma, nas alturas mais inconvenientes. Matos Leitão era o seu nome. Com ele ninguém conseguia meter uma piada, para além da já gasta promoção a Porco que nunca mais saía. Aliás, nem essa nem a outra. A profissional.
- Acho até que temos muita coisa - continuou o agente Leitão. Senão vejamos: temos um cadáver de um chulo, a sua mulher e a amante. E sabemos que ambas esgalham à noite. Parece-me óbvio que temos 50% de probabilidades de acertar na mouche. Se aguardarmos pelos resultados do laboratório, tenho a certeza que saberemos logo qual delas limpou o sebo ao homem...
- Achas? Perguntou Tobias. Sinceramente, acho que não. Há muita coisa que não joga aqui. Tudo nos levou a crer que tivesse sido a puta. Principalmente depois de termos falado com a mulher da vítima. Agora, e depois do interrogatório à Epifânia, custa-me a crer...De qualquer maneira, acho que temos de interrogar a Vanessa outra vez. Nela tudo foi demasiado óbvio. Principalmente a fazer crer que a amante do marido era a responsável por isto tudo... e se calhar até é! Mas indirectamente. Vais ver que o laboratório me vai dar razão. Antes de eu dar “alta” à Eugénia, pede à toxicologia que lhe faça recolhas. De alto a baixo! – ordenou Rodolfo.
- Mas, mas... Inspector...vai deixar a mulher ir embora?
- Claro que vou! Tudo o que ela disse é perfeitamente plausível e nós não temos nenhuma prova contra ela. A única coisa que tenho a certeza é que ela gramava o chulo à brava. Até demais! E quase que aposto que os resultados da toxicologia a vão ilibar. Ou não...
Rodolfo abriu a porta maciça que separava as salas, e dirigindo-se a Eugénia, colocou-a a par da situação, agora de uma forma já mais simpática do que as abordagens anteriores.
- Quando quiser pode sair. Pedia-lhe apenas que aguardasse alguns minutos para a nossa equipa médica lhe faça alguns exames e proceda a umas pequenas recolhas de material para análise. Pressuponho que o fará de forma voluntária, não?
- Claro que sim, Inspector. Agradeço-lhe até! Já agora, e se me permite a pergunta, essas análises vão revelar o porquê de eu não me lembrar de nada do que se passou ontem à noite?
- Vamos ver, vamos ver! Entretanto, se precisar de alguém para depois a levar a casa, diga-me que um dos meus homens encarregar-se-á disso.
- Não, Inspector. Não é preciso. Eu moro aqui bem perto, como sabe. Vai-se bem a pé. Agora se o Inspector me quiser acompanhar, de certeza que não recusarei tão calorosa oferta...
As pernas de Rodolfo tremeram que nem as de um poldro acabado de nascer! Não esperava por uma sugestão daquelas! Aliás, aquilo era mais um convite descarado do que uma sugestão...E, por outro lado, já tinha combinado com os colegas ir beber uns “birinaites”, mas...

(Continua um destes dias...)


16/12/09

Parabéns Pai

Eu sei que isto é uma conversa comigo mesmo, mas imaginemos que não.
Pai, hoje era o dia do teu aniversário. Fazias 63 anos. E já passaram 7 desde que me pregaste essa partida.
Há 7 anos que não vejo o teu sorriso e encolher de ombros, enquanto dizes:
"Aqueles gajos não jogam nada. Assim não vão lá"
Quero-te dizer que este ano estão a jogar e bem! Só falta chegarmos ao fim em primeiro...
Há 7 anos que não te abraço num abraço apertado.
Há 7 anos que não posso gritar “Benfica” contigo a meu lado.
Apenas posso imaginar o teu sorriso, o teu abraço.
Imaginar o rosto e os olhos a brilhar.
Imaginar que te toco e que te beijo.
Imaginar e recordar com saudade.

Para ti, PAI, um beijo e um abraço,
tão grandes que o Universo não chega para os definir.

09/12/09

Do Editorial do Expresso - Ambiente e Verdade

"Sem pôr em causa medidas ambientais úteis, é necessário trabalhar com base na verdade"
Esta frase, do editorial do Expresso do passado Sábado, 07/12/2009, encerra em si mesma de forma concisa e assertiva aquilo que se passa hoje em dia na problemática ambiental, quer a nível internacional quer ao nível nacional.
Embora tudo aponte para que as emissões de CO2 sejam, de facto, a causa mais provável do aquecimento global, sendo igualmente essa a minha linha de pensamento, não me admira nada, antes pelo contrário, que os resultados de alguns estudos sejam forjados de modo a passar a mensagem com mais eficácia, o que para além de lamentável, é condenável.
Em Portugal, embora a uma escala muito mais diminuta e sem a gravidade de um problema global, como o são as emissões de gases com efeito de estufa, estou em crer que se passa algo de semelhante, com estudos que incidem sobre a mesma coisa e apontam para conclusões totalmente opostas. Exemplos não faltam, e assim de repente, lembro-me de: Estudos ambientais sobre o novo aeroporto (Ota/Alcochete), Barragem do Sabor, Co-incineração e a preservação do Lobo-Ibérico Vs Parques Eólicos!!
Não consigo entender como é que técnicos com a mesma formação, que trabalham sobre a mesma legislação, e muitas vezes, usando a mesma metodologia, chegam a conclusões tão díspares...
Explicações para tal não tenho. Ou se calhar até tenho, mas não passariam de especulações.
Vamos esperar, então, para ver no que vai dar o caso já baptizado de "Climategate".

05/12/09

Playboy Portugal (2010) - 12 meses 12 Capas

Fomos hoje surpreendidos, ou não, pela capa da versão portuguesa da revista Playboy. Em vez de uma qualquer pretensa celebridade do género feminino, como seria de esperar, eis que surge o...Ricardo Araújo Pereira.
No mês passado, já a Mãe Playboy de terras do Tio Sam, tinha, num golpe mediático e publicitário genial, dado honras de capa a uma personagem animada (feminina) - Marge Simpson - com o sucesso que se conhece.
Não me parece, no entanto, que seja este o caso da edição lusa.
Podiam colocar uma personagem animada? talvez...mas já não teria o mesmo efeito surpresa pretendido.
Uma vez que, ao que parece, a revista está em crise, e ninguém quer levar com a "abelhinha" da FHM de novo, ficam aqui 12 sugestões para os 12 edições de 2010 (se, entretanto, não fechar portas...):
Janeiro -  Roberto Leal
Fevereiro - Alberto João Jardim (Ed. de Carnaval)
Março - Toy
Abril - Otelo Saraiva de Carvalho
Maio - Fátima (a de Felgueiras...)
Junho - Noddy
Julho - Bibi
Agosto - Bobi e Tareco
Setembro - Emplastro
Outubro - Linda Reis
Novembro - Medina Carreira
Dezembro - MFLeite, em edição especial de Natal!

03/12/09

Lasers e espectáculos desportivos

Parece que a moda dos raios laser nas caras dos jogadores chegou a Portugal. Pelos vistos não é só com o CR9 (ex-CR7). Eis dois casos no último derbi, entre Sporting e Benfica. As "vítimas": Pablo Aimar e Ramires.

Manuela Ferreira Leite, as escutas e o Segredo de Justiça

A afirmação seguinte foi ontem proferida pela líder da oposição, Drª Manuela Ferreira Leite (MFL):
"O problema em causa não tem a ver com os acessos às escutas. Tem a ver com o facto de o povo português não conhecer o conteúdo das escutas..."
Quando a ouvi, esta manhã na rádio, pensei para com os meus botões que não deveria ter ouvido bem, que ningúem com responsabilidades políticas, ex-candidata ao cargo de 1º Ministro, e, actual deputada no parlamento luso, não teria ou poderia ter tamanha irresponsabilidade. Como tal, fui confirmar ao sítio web da dita estação de rádio, e, ingenuidade minha, não é que tal declaração tinha realmente sido proferida, eu não tinha ouvido mal, e sim, MFL tivera tamanha irresponsabilidade, não só política, mas igualmente cívica.
Vamos então por partes:
1º - "O problema em causa não tem a ver com o acesso às escutas" - Com esta afirmação, MFL está declaradamente a dizer que, o já tão famigerado Segredo de Justiça, por ela é para simplesmente "atirar às malvas". É uma opinião aceitável e defensável polítcamente, enquanto tal e em sentido lato. Já não o é quando está em causa um caso que, quer se queira quer não, se encontra em segredo de justiça, e concorde-se ao não, este tem que ser respeitado. Portanto, há um problema grave de atentado ao Estado de Direito Democrático, quando alguém ou alguns (que não o PGR, os magistrados com acesso ao processo e os investigadores) têm acesso às escutas.
2º - "...o facto de o povo português não conhecer o contéudo das escutas..." - Mas MFL queria o quê? que as escutas fossem afixadas em edital, em cada Junta de Freguesia deste País? Que a lei fosse, mais uma vez, grosseiramente violada? 
Nesta fase do processo, ninguém deverá ter conhecimento das escutas, com excepção dos agentes anteriormente referidos. 
No final do processo, ou quando os prazos legais assim o definirem, nada a opôr.  
Mais uma vez, com este tipo de declarações, MFL só vem confirmar duas coisas que já todos sabíamos (embora haja quem faça como avestruz...): Em primeiro lugar que o PSD continua sem ser ou se comportar como oposição credível; e, em segundo lugar, com a permanente preocupação de "assassinar" políticamente José Sócrates, o PSD principalmente através da sua líder e de Pacheco Pereira, apenas dá tiros no próprio pé, uma vez que se torna por demais evidente, que houve quem informasse há já algum tempo estes dirigentes políticos, do que se estava a passar e da existência de escutas em que o 1º ministro é, secundáriamente "apanhado". 
Ou alguém ainda acredita que na 1ª sessão parlamentar da actual legislatura, as referências aos eventuais casos de corrupção e às medidas de combate à mesma, por intermédio de José Pacheco Pereira e de Manuela Ferreira Leite foram inocentes ou pura coincidência?

É que ingenuidades meus caros, só ao volante e a ouvir rádio...

25/11/09

Da cortiça à resina, da rolha à cola

Vem este post a propósito de um conjunto de tweets trocados durante o dia de hoje, e que versavam, e muito bem, sobre o uso de rolhas de cortiça nas garrafas de vinho, e que, na minha ótica, vai muito mais além disso. Como se sabe, a cortiça é-nos proporcionada pelo Sobreiro (Quercus suber), espécie esta que faz parte natural da vegetação arbórea da Península Ibérica, e em particular das zonas alentejana, andaluza e raiana (portuguesa e espanhola).

Embora não pareça, o Montado de Sobro e Azinho constitui um dos mais ricos ecossistemas do planeta, por constituir um habitat natural para várias espécies de vertebrados - aves (algumas rapinas como o Falcão-peregrino Falco peregrinus, e a Coruja-das-torres Tyto alba, outras estepárias, como o Sisão Tetrax tetrax e a Abetarda Otis tarda), mamíferos (lebres, coelhos, javalis, morcegos arborícolas, etc…) e répteis - bem como pela existência de um coberto e sub-coberto vegetal (pastagens naturais), encontrando-se em forte declínio, ainda que de forma mais acentuada, em Portugal. O coberto arbóreo original no nosso país não tem nada a ver com o dos dias de hoje. Assim, onde há algumas centenas de anos atrás, de norte a sul do país, se encontravam várias espécies da família das Quercíneas, tais como o Carvalho-negral (Quercus pyrenaica), o Carvalho-alvarinho (Quercus ruber), o Carvalho-cerquinho (Quercus faginea), o Carrasco (Quercus coccifera), a Carvalhiça (Quercus lusitanica), a Azinheira (Quercus rotundifolia ) e, o já mencionado Sobreiro (Quercus suber), encontramos hoje vastas plantações de pinheiros bravos (Pinus pinaster), mansos (pinus pinea) e eucaliptos (várias espécies).

Centremos pois a nossa atenção no Sobreiro: Esta árvore, cujo revestimento (casca) é a cortiça, tem um papel de grande importância na preservação e manutenção do equilíbrio ecológico nas zonas onde existe, e que pode ser caracterizado, em primeiro lugar, pela barreira natural que constitui contra os incêndios (que são “naturais” nos países mediterrânicos, sendo que a cortiça tem uma enorme resistência ao fogo, protegendo a árvore num 1º nível, e, consequentemente, a um 2º nível, a floresta como um todo); é uma espécie de crescimento lento, o que permite que, de forma natural, tudo à sua volta, ou na sua dependência, tenha um normal desenvolvimento. E, finalmente, tem uma importância económica estrondosa, constituindo-se a cortiça um dos produtos portugueses mais exportados, sendo que até há pouco tempo, era mesmo o mais exportado.
É um ótimo exemplo em como a Economia e a preservação do Ambiente estão em perfeita simbiose.

E eis que chegamos à rolha: um dos maiores aproveitamentos da indústria corticeira é o fabrico de rolhas, principalmente para a indústria vitícola. E não se usam só rolhas em cortiça unicamente para rolhar as garrafas, mas também porque as características físico-químicas da cortiça são as ideais para a conservação das características organolépticas do vinho.
Ao se abdicar da utilização de rolhas de cortiça entramos no início de uma cadeia que levará à extinção do Sobreiro, uma vez que, e de uma forma simplista:
1) a indústria corticeira baixa a produção de rolhas baixando os seus lucros;
2) menos cortiça é usada;
3) mais sobreiros ficam ao abandono;
4) a recolha da cortiça não é feita;
5) as pragas e doenças do sobreiro acabam por tomar conta dos mesmos; e
6) os sobreiros acabam por morrer.
Posteriormente, a longo-prazo, e tal como aconteceu e acontece no norte do país, as florestas autóctones de carvalhos dão lugar a plantações em massa de pinheiros e eucaliptos. 

E de uma coisa tenho quase a certeza: nunca iremos ser conhecidos no mundo pela qualidade da nossa cola ou de outros produtos que tenham a resina como matéria-prima principal. Portanto, é tempo de inverter, de uma vez por todas o título deste post para: “da resina à cortiça, da cola à rolha”.

23/11/09

Crónicas C’um Caneco - Dia 6

Rodolfo, cada vez mais com os olhos arregalados e descaídos para o peito de Eugénia, deu duas profundas passas no largo Gittannes, não disfarçando o seu real nervosismo. Até os colegas o estavam a estranhar. Rodolfo nunca tinha aquele tipo de atitude, e muito menos adoptava aquela postura de falso descontraído. Era óbvio que aquela mulher mexia com ele. Definitivamente.
-Cara Sra. Eugénia! Afirmou aqui, perante todos nós, que não vê o Sr. Tobias há 3 dias, portanto, desde Quinta-feira, certo?
- Não, Sr. Agente. Não o vejo desde a tarde de 6ª feira, Sr. Inspector. Uma grande e bem passada tarde, diga-se de passagem – afirmou de forma insinuante mas serena. E de sexta até hoje, Domingo, são 3 dias. Afirmou Eugénia, não caindo na pergunta amanteigada do Inspector. E já agora, embora eu seja uma Senhora, não precisa de me tratar com tal deferência. É que me faz parecer mais velha, e como sabe, tenho apenas 26 joviais anos.
Rodolfo, acabara de ficar completamente “à nora” com a resposta e o à vontade desconcertante de Eugénia Epifânia. Não só pela astúcia demonstrada até àquele momento, como também, e principalmente, com alguns dos apartes e com o requinte de linguagem, com que aquela mulher o brindava de quando em vez. Vinte e seis anos. Apenas menos sete que ele, que tinha acabado de atingir a idade de Cristo. Só não sabia ainda era o peso da cruz que iria carregar nos tempos mais próximos.

(Continua...um destes dias!)

20/11/09

Deliberação da ERC - 9/PUB-TV/2009

É com isto que a ERC usa o seu tempo? Lá que tem graça, tem...
Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social Deliberação 9/PUB-TV/2009
Assunto: Participação de Ana Maria Pimenta, Telmo Rui Fernandes, Jaime Lima Ribeiro, Tânia Borges e Raul Coelho, contra a exibição de anúncio publicitário da Itouch Movilisto Portugal, Lda., “Orquestra de Peidos”
I. Objecto da participação
As participações recebidas dizem respeito à transmissão do anúncio “Orquestra de Peidos”, não só pelo horário em que foi transmitido, bem como pela utilização de uma linguagem de baixo nível.

...
VI. Análise e fundamentação
...
41. Observando o anúncio publicitário em apreço, verifica-se que as imagens retratadas são simbólicas – incluindo as cenas de nonsense (traseiros a tocarem instrumentos de sopro) – não se confundindo a representação humorística com a realidade. O formato banda desenhada atribui um sentido figurado à representação de flatulências, sendo que, manifestamente, não tem a pretensão de chocar ou ferir susceptibilidades, antes publicitar um produto que se deseja apelativo para o público precisamente pelo seu lado humorístico.
42. Ressalta-se, aliás, que, apesar de alguns aspectos da fisiologia humana – onde se inscreve a flatulência – poderem ser considerados tabu na nossa sociedade, estes assuntos não estão vedados ao exercício de humor.
43. Neste sentido, ainda que alguns aspectos visuais e textuais identificados no referido anúncio publicitário possam perturbar a sensibilidade de alguns telespectadores, a sua natureza deve ser compreendida à luz de um quadro simbólico, lúdico e humorístico – o produto objecto de publicitação é, aliás, caracterizado nesses termos: “Vais pôr toda a gente a rir!”.
44. Conforme tem sido entendimento do Conselho Regulador, não compete a esta Entidade pronunciar-se acerca da qualidade ou bom gosto dos conteúdos transmitidos pelos operadores televisivos, mas sim se foram violados os limites à liberdade de programação (Deliberação 23/CONT-TV/2008, de 23 de Dezembro).
45. Atente-se que o artigo 26º, n.º 2, da Lei da Televisão determina que “o exercício da actividade de televisão assenta na liberdade de programação, não podendo a Administração Pública ou qualquer órgão de soberania, com excepção dos tribunais, impedir, condicionar ou impor a difusão de quaisquer programas”.
46. Há, portanto, o reconhecimento de que a liberdade de programação não deverá sofrer ingerências externas, estando a mesma apenas condicionada em situações que ofendam a dignidade da pessoa humana e os direitos, liberdades e garantias fundamentais.
...
48. Ora, a exposição a conteúdos que envolvam alusão a flatulências (em contexto humorístico ou outro) não possui, per se, o potencial de interferir negativamente na livre formação da personalidade de crianças e adolescentes. A título ilustrativo, relembramos, por exemplo, a exposição Knojo!, que teve lugar no Pavilhão do Conhecimento, e que contribuiu para a desmistificação de alguns temas tabu ou reprimidos pela sociedade, incentivando uma abordagem sem tabus de algumas características fisiológicas do ser humano, onde se incluía a flatulência.
49. Face ao exposto, o Conselho Regulador considera que não foram ultrapassados os limites da liberdade de expressão, pelo que a transmissão de tais anúncios, mesmo no horário em questão, não se traduziu numa violação ao artigo 27.º da Lei da Televisão, nem ao artigo 7.º do Código da Publicidade.

VII. Deliberação
...
2. Considerar que o anúncio transmitido pela SIC e pela TVI se insere dentro dos limites da criatividade que é própria da actividade publicitária, pelo que não foi violado o disposto no artigo 27.º, n.º 1 e 4, da Lei da Televisão;
3. Arquivar consequentemente o presente processo.
....

A documento completo pode ser descarregado aqui

Os Submarinos, Paulo Portas e a Auto-Europa

Mais uma vez a sorte e a conjectura estão do lado do Paulinho. Dizem que a estória dos submarinos nunca vai emergir. Porque senão é a Auto-Europa que se afunda.
Como os submarinos. Até fico amarelo...

Cabedal e Napa

Euclides, assim se chamava um dos construtores daquela fabulosa mansão, tinha um cabedal do arco da velha. Todos os colegas lhe invejavam a sorte que tinha com as "camones".
Sorte? Interrogava-se Euclides. Não. Jamais!
O segredo estava na pele: Cabedal? sim, de dia. À noite...era napa!

16/11/09

Crónicas C’um Caneco - Dia 5


Eugénia estava à beira de um ataque de nervos. Tobias estava, ao que lhe diziam, morto. Assassinado. Tinha à sua frente um Inspector da “Judite”, que a acusava de ter praticado tal acto;  E continuava com uma branca enorme no que à noite anterior dizia respeito, em particular durante aquelas 4 malditas horas.
E se...e se?... não! Não podia ser. Eugénia não queria acreditar naquilo que lhe tinha acabado de passar pela cabeça. E se, durante aquelas 4 horas, algo de muito grave se tivesse passado? Algo de tão grave como...a...a morte de Tobias! E será que tinha sido ela? Não! Não poderia ser!
Nunca, em circunstância alguma, Eugénia cometeria tal acto, ainda mais com o “seu” Tobias. Nem com a mais valente das cardinas ou com uma brutal pedrada. 
Eugénia esforçou-se por explicar ao Inspector Rodolfo isso mesmo.
Contou-lhe a sua relação com Tobias, todas as aventuras e desventuras que com ele tinha passado, a relação azeda que mantinha com Vanessa - a “oficial” de Tobias, agora viúva – e o que se tinha passado na última noite. Disse-lhe, ainda, que a última vez que tinha estado com Tobias tinha sido no apartamento, há 3 dias atrás, durante a tarde de 6ª feira, e que depois disso nunca mais lhe tinha posto a vista em cima. Aliás, nem a vista nem mais nada, gracejou, conseguindo incomodar, de certa forma, o Inspector. 
Após cerca de 30 longos minutos a deixar Eugénia Epifânia falar sem interrupção, Rodolfo, que andava irritantemente de um lado para o outro, abeirou-se da cadeira de Eugénia, encostou-se à quina da velha mesa castanha, puxou de um cigarro e, fitou aquela mulher que ali se encontrava. Por muito que tentasse disfarçar, Rodolfo não evitava que os seus olhos deslizassem para os seios de Eugénia, e cujos mamilos quase trespassavam a fina camisola.
E Eugénia, sabida e experiente nestes assuntos, já o tinha topado.

(Continua...um destes dias!)